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sábado, 21 de agosto de 2021

TDAH: como é possível ser um profissional de alto desempenho?

 TDAH é uma sigla que ficou muito em evidência recentemente com a participação de Fiuk no BBB 21 - mas que atinge cerca de 5% das crianças do mundo inteiro.

É importante destacar que nem todos os TDAHs são iguais a Fiuk. Cada pessoa pode ter sintomas específicos, dependendo de vários fatores, inclusive da alimentação, estilo de vida em geral etc.



Além de ser a "doença de Fiuk", a sigla TDAH quer dizer o seguinte:

  • T - Transtorno (do)
  • D - Déficit (de)
  • A - Atenção (com)
  • H - Hiperatividade

Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), TDAH é um transtorno neurobiológico, que tem causas genéticas e que aparece na infância - mas pode te perseguir na vida adulta, como é o meu caso.

Então, sabendo que cerca de 5% das crianças do mundo têm TDAH, que 60% delas continuam com os sintomas durante a vida adulta, desde 2020 eu resolvi começar a falar publicamente sobre isso.

Por quê? Simplesmente porque eu queria. Acho que é importante falarmos dos nossos problemas. Mas também quis falar para ver se conseguia ajudar outras pessoas - lá no meu instagram você pode encontrar um monte de materiais meus. Durante a minha adolescência eu cansei de ouvir que eu não daria certo em nada... mas parece que as pessoas estavam erradas.

Além de ser TDAH, eu gosto de mostrar às pessoas que elas estão erradas - talvez até seja parte de um dos sintomas. Mas nem todo mundo tem esse "vício" e alguns desistem de tudo no meio do caminho. Por isso que também acho muito importante falar publicamente sobre a minha condição.

No colégio eu era um péssimo aluno. Implantava bombas no banheiro, quebrava cadeiras, não ficava atento às aulas, não estudava direito... até que um dia eu coloquei na cabeça que eu estudaria para ser "alguém na vida" (como me diziam direto) e nunca mais parei. Fiquei até viciado nisso (ou será que é o hiperfoco, que eu falarei mais a frente, um poder mutante dos TDAHs?).

Fora esta introdução, dividi o artigo em mais 3 tópicos. O próximo eu falo de forma geral sobre as dificuldades do TDAH no mercado de trabalho, depois falo das ferramentas/metodologias que uso para contornar o meu problema e finalizamos com a conclusão.

Vamos nessa?!

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS DIFICULDADES QUE O TDAH TRAZ PARA O PROFISSIONAL?

Primeiramente, eu lembro que não sou profissional de saúde. No máximo, sou profissional da saúde financeira das pessoas e das empresas.

O que eu vou falar aqui não deve ser usado para diagnóstico ou tratamento de ninguém. Recomendo que busquem psicólogos, psiquiatras e/ou neurologistas - o diagnóstico é clínico e multidisciplinar. Eu faço acompanhamento com os 3 profissionais.

Como o nome diz, o transtorno é de DÉFICIT DE ATENÇÃO com HIPERATIVIDADE/IMPULSIVIDADE. Só essas duas/três coisinhas já nos trazem muitos problemas na vida pessoal e profissional. Abaixo eu listo alguns problemas/implicações (entre parênteses e em negrito coloco alguns comentários meus):

  • Desempenho abaixo do seu real potencial
  • Desatenção ou déficit de atenção
  • Esquecimento (por memória ou por falta de atenção)
  • Dificuldade de relacionamento pessoal e profissional
  • Viver no "mundo da lua", ou estar no meio de uma conversa pensando em 300 outras coisas
  • Hiperatividade (não conseguindo ficar quieto frequentemente - isso atrapalha assistir aulas ou participar de reuniões)
  • Dificuldade com burocracia, regras, aceitar autoridade e limites
  • Problema de início ou de priorização de tarefas no trabalho (nós gostamos de fazer o que é mais divertido e o que dá para fazermos sozinhos, para não ter que interagir e depender de ninguém)
  • Hiperfoco (é uma habilidade que temos de ficar completamente focados em um trabalho/tema em específico, esquecendo de todo o resto ao nosso redor - isso pode ser ruim, porque você deixa de fazer outras coisas tão ou mais importantes)
  • Atrasos
  • Procrastinação
  • Irritabilidade (eu tenho muito este problema, especialmente quando estou sem fazer exercícios físicos)
  • Inquietação (só depois do meu diagnóstico que eu consegui entender o porquê de eu sempre estar buscando um projeto novo - fazia a parte mais difícil, deixava o projeto para alguém tocar e seguia para outro mais divertido)
  • Fala impulsiva e impulsividade (que podem gerar vários mal entendidos kkk)
  • Dificuldade de avaliar o seu próprio comportamento
  • Muita coisa acontecendo na cabeça ao mesmo tempo, o que dificulta a organização do pensamento
  • Confusão para expressar o que quer dizer com clareza (devido ao ponto anterior - já parou para pensar sobre como é difícil conversar com alguém quando tem outras inúmeras "vozes" na sua cabeça querendo fazer várias outras coisas ao mesmo tempo?)
  • Podem parecer egoístas (talvez pelo hiperfoco as pessoas não entendam quão focados estamos numa coisa e como isso é importante para o nosso bem estar)
  • Associação com outros problemas como uso de drogas (álcool incluso), ansiedade, síndrome do impostor e depressão (eu tenho demais Síndrome do Impostor, mas com a terapia isso tem melhorado)
  • Maior propensão a se envolver em acidentes e violar regras de trânsito (esse é um dos motivos pelos quais eu praticamente abandonei 100% o uso de carro há alguns anos - estava ficando com medo de dirigir e estava levando muitas multas)
  • Maior propensão a assumir comportamentos arriscados, como práticas sexuais de risco, atividades perigosas, prazer por situações extremas seja em esportes ou na profissão (talvez por isso eu tenha uma carteira de investimentos muito agressiva e nunca me importei muito com isso - também só gosto de esportes de luta e surf)
  • Capacidade alterada para avaliar o risco
  • Dificuldade de realizar atividades chatas (eu errava com frequência os lançamentos contábeis quando fui estagiário de contabilidade - era muito chato e repetitivo - mas dava algumas ideias legais/criativas para a gestão da empresa que foram implementadas)
  • Adoção de um estilo de vida pouco saudável (como lazer sedentário e solitário... os videogames que eu tanto gostava de jogar, o surf sozinho na adolescência e os vídeos de pegadinhas que eu tanto gosto de assistir)
  • Condutas antissociais (uma memória antiga da minha infância é que eu não queria interagir com outras crianças e nem pegar salgadinhos ou doces nas festas de aniversário - além disso, eu fico constrangido quando alguém dá beijo e/ou abraço)
  • Relacionamentos amorosos de curta duração (isso não foi um problema para mim - estou há 12 anos com a mesma namorada, que é minha noiva agora)
  • Dificuldade de aguardar a sua vez de falar (#NãoÉMansplaining)
  • Dificuldades na vida familiar
  • Dificuldade para expressar sentimentos
  • Dificuldades financeiras por descontrole financeiro (esse aqui eu não tenho, felizmente)
  • Dificuldade com organização em geral
  • Baixa autoestima
  • Inibição social
  • Excesso de atividades ou trabalho
  • Problemas de sono como dificuldade para dormir, não acordar no horário correto e sonolência durante o dia

Mas nem só de coisas ruins vive um TDAH. Algumas dessas "coisas ruins" que listei acima podem ser boas também, além de outras boas características que são associadas aos TDAHs. Vejamos:

  • Hiperfoco e energia para trabalhar nas coisas que gostam (esse é o nosso maior poder mutante, na minha opinião, mas tem que ser usado com parcimônia, senão atrapalhará a sua vida pessoal - tenho muita dificuldade com isso - Michael Phelps é TDAH, viciado em treinar). Segundo a Super Interessante, o hiperfoco (capacidade de supercontração das mentes desatentas) foi útil para os nossos ancestrais caçadores, porque o cérebro deles ficava muito focado em encontrar a caça para matar e comer. Outro exemplo de hiperfoco: era para eu escrever esse artigo em 30 minutos, mas me diverti tanto que já gastei umas 2 horas - completamente hiperfocado, como se nada mais existisse ao meu redor
  • Hiperatividade e impulsividade ("pessoas impulsivas não ficam se vitimizando", nós vamos para cima do problema)
  • Criatividade (vários artitas, empresários bem sucedidos e inventores/cientistas são TDAH, procura no Google)
  • Empatia
  • Espontaneidade (acho que isso é a forma de ver o copo meio cheio na impulsividade e que só vem com o treinamento adequado)
  • Tenacidade (ou teimosia? kkk Mas é isso, somos duros e não desistimos fácil)
  • Flexibilidade no pensamento (é o copo meio cheio da falta de atenção, mas é bem legal)

Todavia, para se aproveitar das vantagens, é importante fazer o tratamento/treinamento adequado e se planejar bem para a vida pessoal e profissional.


TDAH: QUAIS SÃO AS FERRAMENTAS QUE EU USO PARA ME AJUDAR NO TRABALHO

Como vimos, não é tão ruim quanto parece né? Dá para driblar os problemas e transformar seu "problema mental" em uma coisa boa para você e sua produtividade.

Muitos dos problemas citados na seção anterior me ajudaram a ser uma pessoa mais forte e a lidar melhor com alguns problemas pessoais.

Antes de mostrar o que eu faço para controlar o meu TDAH, é importante destacar que eu desenvolvi a minha estratégia a partir dos 16-17 anos, quando ainda não tinha o diagnóstico (que só veio lá pelos 26 anos).

As estratégias mudaram ao longo do tempo e o meu caso piorou quando terminei o doutorado, pelo excesso de demandas, comecei a orientar trabalhos de mestrado (agora não era mais eu ficando 24 horas ligado rodando regressão, tinha ajudar meus alunos no planejamento e execução - logo eu...) e um início de depressão.

Vamos às ferramentas/metodologias que eu uso para tentar extrair o máximo do meu poder mutante:

  • Meditação (costumo fazer entre 5 e 15 minutos de meditação - gosto do canal Yoga para Você e também do programa Medita-Ação da TC Rádio que você pode acessar gratuitamente na TC Station do nosso app)
  • Exercícios físicos para gastar bastante energia e deixar as 30 vozes da sua cabeça mais caladinhas (finalmente voltei pro Jiu-Jitsu e já percebi muita melhoria na qualidade de vida e do trabalho)
  • Dormir bem
  • Alimentação saudável (essa daqui eu vacilo muito, com muita frequência)
  • Usar ferramentas que evitem fazer com que você esqueça o que tem que fazer ou perca prazos (Trello e alertas do Slack, por exemplo. Sempre que peço algo a alguém, coloco um alerta no Slack para me lembrar que eu pedi algo a alguém no trabalho)
  • Documente as atividades realizadas, para não ficar com a sensação de que não fez nada porque você queria fazer o trabalho de 1 ano em 1 dia (sinto isso direto, até que descobri que se eu controlar as atividades que eu fiz em um papel e riscar quando concluir a tarefa isso me deixa muito feliz. Após isso, no final do dia eu coloco tudo o que eu fiz em um card do Trello e no final da semana eu vejo tudo o que fiz na semana. Isso me dá uma bela sensação de dever cumprido)
  • Exagere ao usar agenda!
  • Considere usar o Método Pomodoro (veja aqui no meu blog como eu costumava usar - atualmente tenho usado a extensão do Google Chrome "Marinara: Assistente Pomodoro")
  • Planeje no final do dia o que tem que fazer no dia seguinte
  • Priorize os itens da lista de atividades
  • Nós temos a tendência de achar que uma atividade, como escrever um artigo para o Linkedin sobre TDAH vai durar 30 minutos, mas facilmente ela dura mais de 2 horas. Então sempre é bom considerar uma gordurinha nas atividades
  • Tente "gameficar" (ou criar metas) as atividades, para ficar mais divertido e dar a sensação de que você está concluindo as coisas que tem que concluir
  • Use o alarme do celular para as coisas mais importantes - você terá uma tendência a procrastinar algumas coisas que aparecem alertas na agenda
  • Delegue atividades (eu tinha muita dificuldade com isso, mas agora estou lidando bem com a ajuda da terapia)
  • Diga não (eu tinha muita dificuldade com isso, mas agora estou lidando bem com a ajuda da terapia)
  • É importante ter uma rotina muito bem definida. Essa é uma das minhas maiores dificuldades. Eu geralmente consigo por um tempo, me desorganizo todo, depois volto. É cíclico para mim

Eu ainda uso meus poderes de forma exagerada e a minha vida pessoal fica prejudicada. Estou trabalhando nisso junto com a minha terapeuta, 1 vez por semana, há mais de 1 ano e 5 meses, aproximadamente.

Adicionalmente, eu tomo um medicamento para o TDAH e um medicamento para ansiedade. Não vou falar deles aqui para ninguém se sentir estimulado a tomar - tem efeitos colaterais e é importante ver se o seu neuro ou psiquiatra acha que deve tomar medicação.

Fazer terapia foi (e ainda é) muito importante para eu entender e aceitar o meu problema. Ela me convenceu a ir mais tarde para o trabalho. Chegava no escritório por volta das 06h30 da matina, mas aqui em São Paulo as pessoas costumam começar a trabalhar mais tarde. A implicação disso era que eu tinha uma péssima qualidade de vida, porque começava a trabalhar cedo e tinha que continuar disponível até tarde da noite. Só com essa pequena mudança, minha qualidade de vida melhorou significativamente - bem como a produtividade no trabalho.

CONCLUSÃO

Para finalizar, quero passar uma mensagem de coach para os que têm essa condição tão chata, mas tão fantástica ao mesmo tempo: o problema não é ter TDAH. Todo mundo tem algum tipo de problema. O problema é não aceitar e não tratar.

Se me perguntassem se eu gostaria de retirar os sintomas da minha vida, eu diria que não provavelmente. Gostaria de me manter como TDAH.

Também existe o lado bom, apesar dos pesares. Um dos estudos que coloquei no final deste artigo até diz que 35% dos entrevistados numa pesquisa não gostariam de eliminar os sintomas, 16% foram ambivalentes e 21% não conseguiram responder.

É muito difícil ser eu (ou você com TDAH que me lê), mas todo mundo tem os seus problemas e todo mundo deve pensar assim também: é muito difícil ser eu.

Todos os dias é uma guerra diferente contra a sua própria cabeça. Então o que eu posso fazer (e você que me lê) é tentar contornar o problema e focar na missão.

E você, vai ficar se martirizando ou vai contornar o problema e focar na missão?

Abaixo você pode encontrar alguns materiais complementares que foram usados para a produção deste texto:

Link da Associação Brasileira de Déficit de Atenção: https://tdah.org.br/

Link do site Focus TDAH: http://focustdah.com.br/tag/vantagens/

Link sobre os mitos do TDAH: https://institutoneurosaber.com.br/mitos-e-verdades-sobre-o-tdah/

Link com estratégias para o dia-a-dia: https://tdah.org.br/tdah-no-adulto-algumas-estrategias-para-o-dia-a-dia/

Link sobre benefícios do INSS para pessoas com TDAH: https://www.jornalcontabil.com.br/voce-sabe-quais-sao-os-beneficios-do-inss-para-as-pessoas-que-sofrem-de-tdah/

Sugiro também que vocês acompanhem o podcast Tribo TDAH. Eles começaram a falar do assunto publicamente por acaso - assim como eu. Viram a repercussão que deu, com o grande volume de pessoas com o problema, que resolveram criar o primeiro podcast específico do Brasil sobre o assunto. Aqui está o Instagram deles: https://www.instagram.com/tribotdah/

Imagem da capa deste texto foi retirada daqui: https://tdah.org.br/tdah-no-adulto-algumas-estrategias-para-o-dia-a-dia/

Alguns estudos que li para pegar informações para o texto:

  • Consequências do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na idade adulta: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862018000100008
  • Qualidade de vida e TDAH:  https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/pKqqM76QhR6BFrwHfJhLcgR/?format=pdf&lang=pt
  • A pessoa com TDAH no mercado de trabalho e o papel do psicopedagogo institucional: https://cadernosuninter.com/index.php/intersaberes/article/view/1366

2 comentários:

  1. Tudo beleza? Mano, sou diagnosticado com TDAH desde os meus 6 anos de idade, apesar de ser diagnosticado um estagio da doença leve tenho vários dos sintomas positivos e negativos, entre eles, principalmente a impulsividade(com o tempo passei a controlar bem mais), criatividade, facilidade pra começar as coisas e dificuldade pra terminar enfim entre outros, o hiperfoco permite aprende muita coisa, principalmente no q te interessa, digo muito q o TDAH é uma dificuldade de atenção pra aquilo que vc não gosta, pq no q gosta foca e mtas vezes exageradamente

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    1. É isso aí, Marco. Tamo junto na guerra diária contra as nossas próprias cabeças!

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