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sábado, 15 de agosto de 2026

Governo da Paraíba: como evoluiu o patrimônio de Cícero Lucena, Efraim Filho e Lucas Ribeiro?

Em uma disputa eleitoral, patrimônio é um daqueles assuntos que rapidamente vira munição política. Um valor isolado pode parecer enorme, pequeno ou suspeito, dependendo de quem olha. 

O objetivo deste trabalho é mais simples e mais rigoroso: abrir as declarações públicas apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral, organizar todos os anos disponíveis para três candidatos ao Governo da Paraíba em 2026 e comparar os números com critérios definidos antes de observar o resultado.



Os candidatos analisados são Cícero Lucena, Efraim Filho e Lucas Ribeiro. A ordem usada ao longo do texto é alfabética. Todos os valores patrimoniais vieram dos arquivos de candidatos e bens do TSE. A correção monetária usa o IPCA oficial do IBGE, com julho de 2026 como mês-base, último mês completo disponível na data da coleta.

A principal cautela deve acompanhar o leitor até o fim: patrimônio declarado não é uma carteira de investimentos. A declaração pode conter imóveis, veículos, participações em empresas, créditos, saldos bancários, aplicações e outros direitos. Sua variação não permite concluir quanto alguém ganhou investindo, recebeu de salário, herdou ou consumiu.
 

O exercício de 2016 e a mudança de linguagem

Em 2016, eu publiquei aqui no blog um exercício didático de matemática financeira com dados de vereadores de João Pessoa. Naquele texto, o patrimônio inicial foi tratado como PV e o patrimônio final como FV. Com esses pressupostos, calculou-se uma média geométrica anual como exercício para alunos. O próprio artigo alertava que entradas de caixa, salários, heranças e outras mudanças estavam sendo desconsideradas.

O exercício era útil para ensinar a mecânica financeira. Para uma análise pública atual, porém, a linguagem precisa ser mais precisa. Aqui usamos “crescimento patrimonial declarado”, e não “retorno dos investimentos”. A fórmula do crescimento anualizado é matematicamente semelhante a uma taxa composta, mas o fenômeno medido não é a performance de uma carteira.
 

Patrimônio dos candidatos ao Governo da Paraíba em 2026

Cícero Lucena

Cícero tem declarações em 2006, 2012, 2020, 2024 e 2026. O patrimônio nominal declarado em 2026 soma R$ 2.517.809,94. É o maior valor entre os três candidatos analisados.

Em termos nominais, o crescimento desde 2024 foi de 28,4%. Depois da correção pelo IPCA, a variação real foi de 16,8%, equivalente a um crescimento real anualizado de 8,1%. A diferença entre as taxas nominal e real é justamente o efeito da inflação.

Os imóveis formam a classe predominante. Os ativos financeiros identificados representam 18,7% do total declarado, e o maior bem equivale a 28,9%. 

Em termos de gestão de patrimônio, Cícero é o que tem a melhor diversificação. Adicionalmente, seus imóveis devem valer muito mais a valor de mercado; e ele tem muitas participações em empresas que devem valer muito mais do que estão registradas na sua declaração de imposto de renda.
 

Efraim Filho

Efraim possui a série mais longa: 2006, 2010, 2012, 2014, 2018, 2022 e 2026. Em 2026, o total declarado é R$ 1.682.784,38.

Na comparação com 2022, a alta nominal foi de 114,3%. Em reais de julho de 2026, a variação foi de 78,8%, e o crescimento real anualizado chegou a 15,6%. Pelo critério definido antes da observação dos resultados, este é o maior crescimento real anualizado entre as duas declarações mais recentes dos três candidatos.

Em 2026, veículos aparecem como a maior classe agregada na classificação utilizada. Os ativos financeiros identificados representam 9,8%; o maior item individual responde por 31,9%.

Com base no patrimônio declarado, Efraim é o que gera o maior nível de preocupação e alguma falta de educação financeira, dado que uma parte relevante de seu patrimônio está alocado em carros. Nunca faça isso, especialmente se você não for político.

 

Lucas Ribeiro

Lucas tem declarações em 2016, 2020, 2022 e 2026. Seu patrimônio declarado em 2026 soma R$ 385.621,65. Entre 2022 e 2026, a variação nominal foi de -29,5%. Corrigida pelo IPCA, a mudança foi de -41,2%, ou -12,4% ao ano.

A redução não prova perda em investimentos, mas chama a atenção. Pode envolver alienação, reorganização, quitação, transferência, diferença de critério ou outras entradas e saídas que a fotografia eleitoral não detalha. A classe predominante é a de imóveis. Os ativos financeiros identificados representam 17,3%, enquanto o maior bem concentra 70,1% do total, a maior concentração individual entre os três.

Em resumo, Lucas foi o único que apresentou destruição patrimonial no lugar de construção, com base nos dados. 

A queda patrimonial veio principalmente da redução dos imóveis declarados. Aparentemente, também houve a venda de um automóvel, liquidação de uma previdência privada - um pouco compensados pelo aumento das aplicações financeiras. 

Em termos de gestão patrimonial, Lucas está com baixíssima liquidez e com muita concentração em imóveis. Não faça isso, especialmente se você não for político com salário fixo e garantido.

Entre 2022 e 2026, esses foram os detalhes:
  • Imóveis: de R$ 464.460,18 para R$ 318.847,99, queda de R$ 145.612,19.
  • Veículo: havia um automóvel de R$ 45.176,00 em 2022, ausente em 2026.
  • Previdência privada: havia R$ 33.268,13 em 2022, ausente em 2026.
  • Disponibilidades e aplicações financeiras: cresceram de R$ 4.202,96 para R$ 66.773,66, compensando parcialmente as reduções.
 

Comparando a evolução patrimonial de Cícero Lucena, Efraim Filho e Lucas Ribeiro

O ranking depende da pergunta. Em valor absoluto de 2026, Cícero lidera. No crescimento real anualizado entre as duas últimas declarações, Efraim lidera. Lucas tem o menor patrimônio total e a maior concentração no maior bem. Essas três frases usam métricas distintas e não devem ser misturadas em um único “placar”.



A série em reais constantes traz outra informação. O valor declarado por Cícero em 2006, atualizado até julho de 2026, é próximo do patamar atual, apesar do aumento nominal. Efraim mostra grande expansão real entre 2006 e 2010, seguida por oscilações. Lucas cresce até 2022 e recua em 2026. 

 

O que existe dentro do patrimônio de Cícero Lucena, Efraim Filho e Lucas Ribeiro, candidatos ao Governo da Paraíba em 2026?

Duas pessoas podem declarar o mesmo total com estruturas completamente diferentes. Uma pode concentrar quase tudo em um imóvel; outra pode dividir o valor entre empresas, veículos, saldos bancários e aplicações. Por isso, a análise separa imóveis residenciais, outros imóveis, imóveis rurais, veículos, participações societárias, contas, poupança, títulos, fundos, ações, dinheiro, créditos e outros bens.



A classificação parte do texto do TSE e é auditável. Ela não tenta adivinhar o que não está escrito. Expressões genéricas são mantidas em categoria residual. Isso reduz a aparência de precisão, mas preserva a honestidade da análise dos dados.
 

Ativos financeiros, concentração e liquidez




Chamamos de ativos financeiros declarados apenas os itens identificáveis como contas, poupança, CDB/RDB, renda fixa, fundos, ações ou aplicações semelhantes. Dinheiro em espécie aparece como disponibilidade separada. Imóveis, empresas e veículos não são classificados como líquidos.

Concentração também é descritiva. Calculamos a participação do maior bem, dos três maiores e o HHI por categoria patrimonial. Um HHI elevado significa que poucas categorias respondem por grande parte do valor declarado. Não significa automaticamente risco excessivo, impropriedade ou má decisão.
 

Como ler os intervalos e o índice base 100




Não basta comparar apenas o primeiro e o último ponto sem observar o caminho. Cícero não apresentou candidatura em todas as eleições intermediárias; há um intervalo de oito anos entre 2012 e 2020. Efraim oferece observações mais frequentes, incluindo o registro municipal de 2012. Lucas inicia sua série apenas em 2016. O CAGR padroniza intervalos, mas não recupera os acontecimentos entre duas fotografias patrimoniais.

O índice base 100 responde a outra pergunta: quanto vale a última declaração real em relação à primeira declaração da mesma pessoa? Ele não compara riqueza absoluta entre candidatos. Cada linha começa em 100 no próprio ano inicial. Isso evidencia trajetórias relativas sem transformar o patrimônio em aplicação financeira.
 

Limitações

Os dados são declarações dos próprios candidatos ao TSE. Valores de imóveis, quotas e outros bens podem estar registrados por custo histórico e não refletir o preço atual de mercado. Uma mudança de valor pode decorrer de compras, vendas, doações, heranças, receitas, gastos, dívidas quitadas ou reclassificações. A base de bens não revela toda a origem e o destino dos recursos.

Os intervalos entre eleições não são sempre iguais. A correção monetária depende do mês de referência escolhido. O IPCA permite comparar poder de compra, mas não transforma o patrimônio em uma carteira marcada a mercado. A ausência de um investimento específico não prova desconhecimento ou rejeição do ativo. E nenhuma variação apresentada aqui demonstra, por si só, irregularidade.

Os dados de 2026 estavam em atualização diária no TSE quando foram coletados. Qualquer publicação deve repetir a coleta e verificar se houve retificação.
 

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