[REVIEW] O Andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas - Contabilidade & Métodos Quantitativos

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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

[REVIEW] O Andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas

Eu li "O Andar do Bêbado: como o acaso determina as nossas vidas" no primeiro ano do mestrado (2011) - a leitura do livro fazia parte da disciplina de Métodos Quantitativos do Professor Paulo Amilton Maia Leite Filho.

Quase 8 anos depois resolvi revisitar as anotações e compartilhar o resumo do livro com vocês.

O livro trata de vários conceitos importantes que devem ser sempre aplicados às nossas vidas seja como pesquisadores, seja como investidores, como advogados, médicos ou só como curiosos e tomadores de decisão, como: "regressão à média", vieses estudados em finanças comportamentais, teoria do acidente normal etc.

P.s.: acabei de lembrar que eu emprestei esse livro a alguém e esse alguém não me devolveu. Se você está com o meu livro e não me devolveu, peço que devolva. Acho até que foi um tio meu...




Aos que se interessarem pelo livro, podem comprar por meio do link abaixo:



A versão em inglês do livro está aqui:


MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Trad. por ALFARO, Diego. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

Dados do autor: doutor em física pela Universidade da Califórnia, professor de Teorias da Aleatoriedade no Instituto de Tecnologia da Califórnia, é escritor e vice-Presidente de Tecnologias Emergentes e Pesquisa e Desenvolvimento na Scholastic Inc.

Comentários sobre a obra: o autor faz uma análise muito interessante sobre como a aleatoriedade afeta as nossas vidas e por que motivo nós não percebemos seus efeitos no nosso cotidiano. A obra é muito rica em detalhes e exemplos que fazem com que a leitura seja mais interessante.

Apesar de ser parte do nosso cotidiano, o estudo da aleatoriedade já vem sendo efetuado por diversos estudiosos por séculos atrás. O autor faz um estudo histórico, mostrando capítulo a capítulo quais pesquisadores estavam envolvidos no processo de formulação e construção de conceitos de aleatoriedade e outros conceitos de estatística, geralmente aplicados aos jogos de azar; posteriormente, aplicados à pesquisa.

Este livro pode ser indicado para qualquer curso de estatística, como um complemento e atividade extra-classe, visto que apresenta conceitos fundamentais para o entendimento da importância da disciplina.

RESUMO

1.     Olhando pela lente da aleatoriedade

O autor, desde criança, começa a perceber como a aleatoriedade está presente em novas vidas. Observando o movimento que o fogo das velas fazia, questionou-se como poderia prever aqueles movimentos. Auxiliado por seu pai, tem o primeiro contato com o aleatório, com o exemplo próprio da Guerra.

            Ele mostra que as pessoas buscam um padrão em tudo, desde alimentos que, aparentemente, fazem mal a um padrão de testes científicos. Citando vários exemplos, ele começa o livro instigando o leitor a observar o mundo por outro ângulo: o da lente da aleatoriedade.

            Falando de “regressão à média” o autor cita um exemplo do Nobel de economia em 2002, que falava os efeitos do elogio ou da crítica em nada influenciavam no desempenho dos alunos. 

O que havia era um falsa percepção de que o elogio faz o aluno piorar e a crítica faz o mesmo melhorar. Com esse exemplo, o autor quis mostrar, mais uma vez, que em muitas ocasiões em nossas vidas, nós nos deixamos levar pela intuição, sem considerar os efeitos da aleatoriedade dos eventos.

2.     As leis das verdades e das meias verdades

Este capítulo se inicia falando de alguns “padrões” que são vistos na natureza e no homem. Alguns destes padrões são, de fato, comprovados, mas outros não. 

Então surge o questionamento: entre todos os padrões existentes na natureza, como determinar quais são mais significativos?

Percebe-se que o autor, em seu exemplo citado sobre probabilidades, com “Linda”, faz uma relação errônea entre skinheads, antifeminismo e nazismo.

O autor mostra como a nossa percepção das coisas determina o modo como “calculamos” a probabilidade de certos eventos. A isso ele chamou de “viés de disponibilidade”. 

Em outras passagens, mais a frente, falando do desenvolvimento da matemática e o porquê de os gregos não terem desenvolvido seus conhecimentos em probabilidades, o autor atribui o não desenvolvimento dos conhecimentos em probabilidades naquele povo com matemática tão desenvolvida a dois fatores: 

a) eles eram muito ligados à crendices, isso impossibilitou o desenvolvimento desse ramo da matemática; e 
b) ao fato de que eles não tinham um sistema numérico propício à elaboração de cálculos aritméticos, o que é fundamental para a probabilidade.

Na metade do capítulo somos introduzidos a alguns conceitos de Leis das probabilidades, como: combinação de probabilidades; soma das probabilidades; e como essas leis podem ser aplicadas no nosso cotidiano e, com alguns exemplos citados no livro, no direito.

      O autor termina o capítulo argumentando sobre aplicações de probabilidades no direito, mostrando que ela tem importância, se aplicada de maneira correta.



3.     Encontrando o caminho em meio a um espaço de possibilidades

O capítulo se inicia contando uma breve história da vida de Cardano, dando ênfase ao descobrimento de “O livro dos jogos de azar”, dito como sendo o primeiro da história a tratar de aleatoriedade. Com esse livro, dá-se início ao conceito de Lei do Espaço amostral (no capítulo 14 do livro de Cardano, que trata “dos pontos combinados”).

Cardano não era um gênio que dominava as probabilidades racionalmente, inclusive tinha algumas crendices como: acreditar em horóscopos

Ele desenvolveu o raciocínio probabilístico muito mais pela necessidade do que pela racionalidade. Necessitava de dinheiro para estudar medicina e viu nos jogos de azar uma grande oportunidade para tal (é mais ou menos como os traders iniciantes na bolsa que acabam se dando muito mal).

Na página 62 o autor cita um exemplo muito interessante para explicar a Lei do Espaço Amostral. O caso foi de uns alunos que faltaram a uma prova e pediram outra chance ao professor, argumentando que o pneu do carro havia estourado no caminho. O professor colocou os dois em salas separadas e fez a pergunta: qual pneu do carro estourou. Com isso, ele explica o porquê de a chance dos dois terem respondido da mesma maneira ser de ¼.

O final do capítulo mostra também o fim da vida de Cardano e quando seu famoso Livro dos jogos de azar foi publicado e como Cardano teve azar em sua vida, exceto nos jogos.

4.     Rastreando os caminhos do sucesso

O capítulo é iniciado com a evidenciação dos porquês do trabalho de Cardano não terem tido tanto sucesso: muita influência de crendices, por exemplo. 

Se Cardano tivesse nascido alguns anos depois (no período da Revolução Científica), o resultado poderia ter sido diferente (ou não, pois a época faz o pesquisador).

O ponto chave para a Revolução foi a descoberta de Galileu, trazendo à tona que a ciência deve dar foco ao experimento e à experimentação, utilizando matemática. Galileu chegou, de maneira indireta, ao conceito de que a probabilidade de um evento depende do número de maneiras pelas quais ele pode ocorrer. 

Como prêmio pela descoberta, Galileu foi pego pela Inquisição.

Galileu fez alguns seguidores, entre eles: Pascal

Pascal com seus estudos, apontou um avanço importante que foi o Triângulo de Pascal, que considera agrupamentos em várias condições. 

Junto com Fermat, Pascal deu um grande passo para a teoria da aleatoriedade. A contribuição de Pascal foi sobre a contagem e com o conceito de esperança matemática.


5.     As conflitantes leis dos grandes e pequenos números

O capítulo trata, de fato da aleatoriedade, mostrando uma discussão entre o autor do livro e um amigo, sobre a existência de números aleatórios

O colega do autor, Moshe, afirma que o mais próximo da aleatoriedade é o lançamento de um dado, mas que nem isso pode demonstrar números perfeitamente aleatórios, pois não se pode construir um dado perfeito. Com o lançamento do dado milhões de vezes, poderemos perceber essa falta de aleatoriedade.

Em seguida o autor traz o conceito da Lei de Newcomb-Benford, muita usada em contabilidade, para auditoria de empresas. 

A lei diz que os algarismos de 1 a 9 não aparecem com a mesma freqüência, tendo o número 1 a maior de todas com 30% das vezes.

Posteriormente, é citada uma tabela de pesquisadores, utilizando o Método de Monte Carlo, em homenagem aos cassinos, que foi o que motivaram o estudo desse método, feito a partir de roletas de cassinos. 

É interessante o comentário feito pelo autor quando fala da não existência de médiuns, pois se eles existissem, seriam encontrados em locas como Monte Carlo, enchendo carrinhos de dinheiro.

            O capítulo trata também do matemático Bernoulli (e seu Teorema Áureo) e do conceito de limites. O Teorema Áureo foi um marco para o estudo das probabilidades porque mostrou que um número maior de observações, refletiria quase que com 100% de certeza a composição da população. 

É importante lembrar que, nesse Teorema, Bernoulli considerava a extração de um elemento da amostra, recolocando o elemento anterior na amostra: havia reposição. Isso limita o uso prático, em casos de entrevistas, por exemplo, que uma pessoa poderia responder mais de uma vez.

            “Confrontando” o Teorema Áureo, Kahneman e Tversky definiram a Lei dos Pequenos Números, buscando descrever a tendência equivocada que as pessoas tem de aplicar o Teorema Áureo, quando os números não são grandes.



6.     Falsos positivos e verdadeiras falácias

O capítulo trata inicialmente do Teorema de Bayes, falando sobre probabilidade condicional. O Teorema estima a probabilidade de um evento, dado outro. Para isso, utiliza-se o conectivo lógico “se”.

            O Teorema de Bayes é importante para entender e explicar diversos fenômenos, mas para usá-lo, deve-se saber como a análise é feita. O autor cita diversos casos de análises feitas erroneamente, prejudicando alguns envolvidos. Apesar de Bayes ter trabalhado em seu Teorema, ele não se preocupou muito em publicar artigos. Anos depois, Laplace se apossa do seu Teorema e a partir daí o Teorema de Bayes passa a ser reconhecido.

7.     A medição e a Lei dos Erros

O sétimo capítulo, destinado à medição e a Lei dos Erros, mostra diversos casos de erros em observações, geralmente exemplificados por meio de notas, onde dois avaliadores, por exemplo, não definiam notas iguais para uma mesma prova.

Casos interessantes foram mostrados, na degustação de vinhos e refrigerantes, onde os pesquisadores modificavam algumas características externas ao produto, como garrafas ou etiquetas de preço, fazendo com que os degustadores mudassem suas opiniões. 

O autor justifica esses erros pela ausência do contexto. As pessoas usadas no experimento não tinham o contexto que era sempre usado por elas: a garrafa de Coca-Cola, por exemplo.

            Para diminuir a incerteza quanto aos erros gerados em uma amostra, foi criado o desvio padrão, que mostra o quanto os dados se aproximam da média.

            Em seguida, o autor entra no conceito da Curva Normal, que é, na verdade, uma família de curvas e encerra o capítulo falando do Teorema do Limite central como sendo um dos mais importantes para a estatística.

8.     A ordem no caos

Esse capítulo é interessante pois mostra, agora, a estatística sendo utilizada como ferramenta para as ciências sociais e estudos físicos de uma população, diferente dos outros, onde havia o desenvolvimento de Teoremas, na maioria deles, advindos de observações em jogos de azar.

Os pioneiros nesse tipo de estudo foram Graunt e Petty, que estudaram a taxa de nascimento e mortalidade em Londres, no período da Peste Negra. A Graunt também é dado o mérito de ter elaborado a primeira “tábua de vida” que até hoje é utilizada por diversas empresas, como seguradoras e até a Organização Mundial de Saúde. Nessa tabela, ele evidenciou que a expectativa de vida máxima dos londrinos era de 76 anos àquela época.

Um segundo estatístico envolvido no estudo dos fenômenos sociais foi Quételet, que analisou a mortalidade sob diversas perspectivas. Quételet se voltou também para os assassinatos, analisando-os por meio de diversas maneiras de se cometer esse crime.

Na biologia, o primeiro a utilizar a estatística foi Galton, que era aficionado em medição. Um estudo muito corajoso feito por ele foi sobre a expectativa de vida dos clérigos, que era igual ao de uma pessoa normal, concluindo que o tempo de reza dedicado por eles não trazia nenhum benefício relacionado ao tempo de vida. 

Galton foi mais a diante com o estudo da eugenia, que dizia que as pessoas herdavam algumas características de personalidade, não só físicas.

Galton, realizando experimentos comparativos de hereditariedade, concluiu que os elementos tendiam à média, chamando esse fenômeno de regressão à média. Outra contribuição do pesquisador à estatística foi a criação do coeficiente de correlação que indica o relacionamento linear entre duas variáveis.

A contribuição de Galton não foi apenas direta, mas indireta, pois ele influenciou outros estatísticos, dentre eles Pearson. Pearson contribuiu com o conceito de teste do chi-quadrado, que foi demonstrado em Monte Carlo.

9.     Ilusões de padrões e padrões de ilusões

O nono capítulo tem seu início com alguns casos de sessões de espiritismo, onde o autor procura mostrar, por meio de alguns experimentos de estudiosos da área, que isso não passa do imaginário humano; citando Faraday, que notou, em seus experimentos, que a imaginação humana não é conseqüência da realidade, mas sim de um ato imaginativo: a realidade está no olho de quem vê

O objetivo desse capítulo é mostrar que alguns eventos que, talvez, seguem algum padrão, na verdade, são obras do acaso.

Para tentar se proteger de falsos padrões, existem alguns testes que podem ser usados. Uma das técnicas é o teste de significância, criado por Fisher, na década de 1920. Para isso, o pesquisador deve formular uma hipótese e testar se ela deve ou não ser rejeitada.


Nós não conseguimos reconhecer ou produzir a aleatoriedade, pois buscamos sempre algum padrão em tudo. Um exemplo interessante sobre isso é quando o autor fala que a Apple desenvolveu um software para reproduzir as músicas do Ipod de maneira aleatória. 

Os usuários, quando ouviam uma música que já havia sido tocada, começaram a “perceber” que o software não era de fato aleatório. Com isso, a empresa fez com que o programa se tornasse menos aleatório, para parecer mais aleatório.

O autor afirma que a aleatoriedade é definida pelo controle que as pessoas exercem sobre os eventos. Eventos que são controlados, não são aleatórios e vice versa.

Outro fato interessante do capítulo é quanto ao “viés da confirmação”, onde nosso cérebro busca um padrão, mesmo onde talvez não haja, de modo a formar opiniões falsas sobre determinado evento.


10.  O andar do bêbado


O início deste último capítulo mostra a descoberta de Lorenz, de que pequenas diferenças levavam a grandes variações no resultado final. A essa descoberta, deu-se o nome de “efeito borboleta”. São evidenciados vários casos de que aleatoriedade está, de fato, presente e pode determinar nossas vidas. Casos em que uma estratégia deu certo, mas poucos meses depois, o efeito foi contrário e a pessoa perdeu todos os créditos conseguidos com a vitória anterior.

Em alguns sistemas complexos, onde há um nível de cuidado muito alto, nós acabamos por dar menor interesse a coisas pequenas. 

Sobre isso, Perrow, com sua Teoria do Acidente Normal, mostrou que isso, de fato, acontece, pois não damos tanta atenção a coisas pequenas e o acaso cuida de fazer com que isso acontece. O contrário também pode acontecer, pois coisas pequenas também podem fazer o sistema complexo dar certo, principalmente em eventos econômicos onde o acaso está muito presente.

O caso de Bruce Willis é interessante para exemplificar como um fator pequeno pode fazer com que o acaso determine nossas vidas. Ele precisou viajar, por algum motivo, e acabou participando de um teste de programa de TV que fez com que o sucesso batesse a sua porta.

Podemos resumir o porquê de não percebermos os efeitos da aleatoriedade na nossa vida e até esse capítulo inteiro com apenas essa frase do autor: 
Deixamos de perceber os efeitos da aleatoriedade na vida porque, quando avaliamos o mundo, tendemos a ver exatamente o que esperamos ver.

Se o livro vale à pena?! 

Totalmente sim, principalmente se você gosta de uma história bem contada, matemática e estatística. O livro não é técnico, é histórico. Quem não entende muito de matemática conseguirá ler sem maiores problemas.


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