Explorando mais algumas evidências sobre o caso de "insider trading" da JBS - Contabilidade & Métodos Quantitativos

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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Explorando mais algumas evidências sobre o caso de "insider trading" da JBS

Postei na última segunda-feira uma análise da PIN (probability of informed trading) da ação da JBS ($JBSS3) e do dólar, apontando que há evidências de negociações anormais no período pré-vazamento da delação. Mais informações sobre o modelo da PIN podem ser obtidas na tese de doutorado de 2012 do Professor Orleans Silva Martins (clique aqui).

Coincidentemente, no mesmo dia em que divulguei o texto aqui no blog, foi divulgada a notícia de que os irmãos Batista se tornaram réus por insider trading (uso indevido de informações privilegiadas no mercado financeiro) e que a CVM estava abrindo um processo administrativo sancionador a partiri das investigações.

Enfatizo mais uma vez que não estou julgando os irmãos Batista por nada. Estou analisando apenas evidências de movimentos fora do comum com as ações da JBS.

Então vamos lá a mais algumas evidências sobre o caso:

ANÁLISE DE EVIDÊNCIAS ADICIONAIS: volume financeiro de negociações com a ação JBSS3

No ano de 2017 a $JBSS3 teve um volume financeiro médio diário de R$ 115 milhões (dados até 27/09/2017, coletados na Economatica), sendo que antes do dia 18/05/2017 (primeiro pregão da bolsa após o vazamento) o volume médio diário era de R$ 96 milhões.

Após o vazamento, o volume médio diário passou a ser de R$ 134 milhões (volume aproximadamente 40% superior ao do período pré-delação), provavelmente pelo aumento da especulação com notícias da empresa.

O gráfico abaixo apresenta o comportamento do volume financeiro diário da ação.

Volume em log natural, para melhor visualização do gráfico

Para não usar apenas o olho para verificar a anormalidade no volume financeiro negociado antes de sair um fato relevante importante que justificasse tal volume, vamos analisar mais alguns números:

1) A JBSS3 faz parte do principal índice de ações da nossa bolsa de valores (Ibovespa, ou IBOV para os mais íntimos), representando 1% do índice. Por este motivo, calculei quanto do volume financeiro da JBSS3 representa do volume total negociado no IBOV.
Na nossa amostra de 2017, o volume da JBSS3 representou 1,61% do volume do IBOV. Antes do vazamento, esse percentual era de 1,34%. Após o vazamento o percentual passou a ser de 1,87%.
No dia 16/05/2017 e no dia 17/05/2017 (1 dia antes do primeiro pregão pós vazamento), os percentuais foram de, respectivamente, 2,84% e 2,38%. A média desses dois dias equivale a 1,63 vezes a porcentagem média de 2017, 1,33 vezes a porcentagem do período pré-vazamento e 0,76 vezes a porcentagem pós-vazamento.

2) Como podemos observar no gráfico do comparativo do volume da JBSS3 e IBOV, houve, aparentemente, uma alteração de comportamento do volume antes e após o vazamento da delação. 
Utilizando-se um teste t de médias, verificamos que o volume antes e depois (retirando o dia 18 da amostra, por ser o evento chave)  do vazamento, as evidências apontam que nós podemos rejeitar a hipótese nula de que o volume financeiro médio diário seja igual antes e após o vazamento (estatística t = -3,2370, 91 graus de liberdade e p-value = 0,0017).
Como a amostra não tem distribuição normal e o desvio-padrão (e a variância) não é homogêneo antes e depois (desvio-padrão do volume é quase duas vezes maior, após o vazamento da delação - estatística f = 0,2581, 91 e 91 graus de liberdade e p-value = 0,0000), resolvi ser conservador e usar uma versão não paramétrica do teste t de média. O teste de Mann-Whitney corroborou o resultado encontrado anteriormente com o teste t (estatística z = -2,442 e p-value = 0,0146).
3) Para detalhar um pouco mais a análise, realizei o mesmo teste t de média para verificar se o volume negociado nos dias 16 e 17/05/2017 foram normais (dentro da média pré- e pós-vazamento).
Com 91 graus de liberdade, temos as seguintes estatísticas para o período pré- e pós-vazamento: t = -22,7678 (p-value = 0,0000) e t = -7,9681 (p-value = 0,0000).
Essas evidências, mais uma vez, corroboram a hipótese de que o volume naqueles dois dias foi diferente do que acontecia normalmente com a empresa.
 O volume financeiro desses dois dias é comparável, por exemplo, ao volume financeiro do dia da deflagração da Operação Carne Fraca (17/03/2017), que derrubou as ações da JBS e BRF. A diferença é que o fato realmente relevante só deveria ter impacto no mercado no dia 18/05/2017, não nos dias 16 e 17/05/2017, fazendo com que o volume financeiro saísse do normal.
Dias sem barras são dias sem pregão

 4) Por fim, se olharmos para a variação do volume financeiro da JBSS3, percebemos que é desproporcional com relação ao próprio IBOV, conforme o gráfico abaixo, além de o pico de volume na JBSS3 ocorrer antes do pico do IBOV, que é no dia 18/05/2017.
Os desvios-padrão (e variância) da JBSS3 e IBOV são, inclusive, diferentes estatisticamente (f = 4,6027, 90 e 90 graus de liberdade e p-value = 0,0000). 


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste post eu apresentei mais algumas evidências de que algo incomum aconteceu com as ações da JBS no período pré-vazamento da delação. É possível que alguém tenha tido acesso antecipadamente ao conteúdo da delação e tenha se beneficiado no mercado de ações com isso. Quem foi? Não sabemos ainda.

Essas evidências corroboram a estranheza que foi gerada no mercado pelo fato de os controladores da empresa terem vendido ações, por exemplo, nos dias 16 e 17/05/2017, em um total de R$ 45 milhões (equivalente a 21% do volume negociado nesses dois dias), além de terem vendido mais de R$ 328 milhões ainda em abril (veja aqui o meu post do dia 19/05/2017).

Essas evidências corroboram ainda aquelas apresentadas na última segunda-feira, em que usamos dados de alta frequência e modelos de microestrutura de mercado para estimar a PIN da JBSS3 e dólar (veja aqui).

Agora resta à CVM em conjunto com B3 (nossa antiga Bovespa) e corretoras verificar de onde partiram tais negociações e a justiça julgar os possíveis envolvidos.

Finalizo o post agradecendo a Nicholas Rodrigues (estagiário da Assessoria de Extensão do CCSA/UFPB e analista acadêmico da Sala de Ações) e ao meu PIBIC Glauco Pordeus, pelo suporte na coleta dos dados.

Vamos torcer para que casos como esses não voltem a acontecer no nosso mercado que já é tão frágil.

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