Vale à pena seguir as recomendações dos analistas? Comparativo com o CDI de 2001 a 2017 - Contabilidade & Métodos Quantitativos

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domingo, 17 de dezembro de 2017

Vale à pena seguir as recomendações dos analistas? Comparativo com o CDI de 2001 a 2017



Alguns meses atrás eu fiz um texto aqui no blog evidenciando que valeria à pena investir em ações, desde que escolhêssemos bem as empresas e investíssemos visando o longo prazo (e.g. aposentadoria).

Esse texto teve uma grande quantidade de acessos e até nos rendeu uma boa divulgação no programa “30 Minutos para se Aposentar com Ações”, do meu amigo Marco Saravalle, analista da XP Investimentos. Quem não assistiu ao programa, recomendo que assista.

A motivação para termos feito aquele trabalho foi uma matéria de uma consultoria que dizia que o investimento em ações perde do investimento em renda fixa, usando a comparação do Ibovespa (IBOV) e o CDI.

Esse tipo de matéria é muito perigosa, porque as pessoas que não conhecem o mercado de ações acreditam que o IBOV tem as melhores empresas da bolsa e isso é um mito. O IBOV tem muita coisa ruim!

Como dizemos aqui na Paraíba, essa competição foi muita “garapa” para o CDI. Quero ver ele ganhar de uma carteira diversificada e com empresas com bons fundamentos. Foi isso que mostrei naquele texto do dia 12/09/2017.

Desta vez eu resolvi entrar em outro ponto polêmico: será que vale à pena seguir as recomendações dos analistas sell-side?



Os sell-side são os analistas que vendem relatórios de recomendações para os investidores que não têm tempo, experiência, ou segurança para escolher suas próprias ações.

Muitas pessoas não acreditam no trabalho do sell-side e não recomendam que as pessoas sigam suas recomendações. De fato, existe muito analista que é especialista em errar, porém existe muito analista bom.

Nós do Núcleo de Estudos em Análise de Investimentos e Contabilidade (NAIC) da UFPB estamos fazendo algumas pesquisas sobre isso (algumas até já estão divulgadas cientificamente – vocês podem ver no meu currículo lattes) e outras estão em andamento (working papers).

Aos que quiserem uma leitura mais científica sobre o assunto e não apenas resultados preliminares como este, recomendo que leiam o artigo “Impacto dos Relatórios de Recomendações dos Analistas Sell-Side nos Retornos das Ações”, escrito por Bruno Sun, Liliam Sanchez Carrete e Rosana Tavares (ambos da USP), em que, por meio de estudos de eventos, os autores evidenciaram que a divulgação dos relatórios dos sell-side impacta o mercado de ações brasileiro.

Após essa introdução, vamos ao que interessa. Dividi o restante do post da seguinte forma: 1) metodologia da análise, 2) análise dos resultados e 3) considerações finais.

METODOLOGIA DA ANÁLISE

Para este post, eu segui uma metodologia semelhante àquela usada no post do dia 12/09 (veja aqui), porém eu fiz duas simulações:

1) A primeira simulação foi feita para um investidor que tinha R$ 50.000 para investir em ações, no início de 2001, e que estava disposto a pagar R$ 3.000 anualmente para uma financial research (casa de análise de ações, onde os analistas sell-side trabalham) recomendar uma carteira para ele. Já a segunda simulação foi feita para um investidor menor, que tinha R$ 10.000 disponíveis e que estava disposto a pagar R$ 300 anualmente para uma financial research. Por conservadorismo, utilizei os R$ 3.000 e R$ 300 que são valores do mercado de hoje, desde 2001, sem deflacionar;

2) Coletamos na base de dados da Thomson Reuters Eikon as recomendações (venda fortemente, venda, manter, compra e compra fortemente), a quantidade de analistas para cada empresa e o retorno total das ações. As recomendações e analistas foram coletadas com base no dia 01/04 de cada ano e os retornos foram calculados do dia 01/04 do ano base, até o dia 01/04 do ano seguinte. Se não houve pregão no dia 01/04, foi usado o dia seguinte para o cálculo.

Para o cálculo do retorno total, consideraram-se, inclusive, os reinvestimentos dos proventos para acentuar o efeito dos juros compostos.

Para esse post eu tenho um agradecimento especial a Geisa Paulino, pelo auxílio na coleta dos dados e ao IDEP-UFPB por financiar a base de dados que nós usamos.

3) Para selecionar as carteiras com as 10 ações, nós optamos por usar como critério as ações que foram mais recomendadas pelos analistas. Em alguns anos, as últimas colocações para entrar na carteira apresentaram ações com a mesma quantidade de recomendações.

O procedimento para o caso em que houve empate de recomendações nas últimas colocações da carteira foi o seguinte, com um exemplo:

O ano de 2007 contou com 13 ações na carteira, porque tivemos 7 ações com de 10 a 12 recomendações e 6 ações com 9 recomendações. Como, teoricamente, investiríamos nas 10 ações mais recomendadas, optamos por dividir os 30% restantes da carteira igualmente entre as 6 ações com tiveram 9 recomendações. Esse procedimento foi repetido sempre que houve empate de recomendações nas últimas vagas da carteira anual.

As carteiras de cada ano podem ser visualizadas no final do post.

4) Após a formação das carteiras, nós comparamos o investimento de R$ 50.000 e R$ 10.000 nas carteiras recomendadas pelos analistas, no IBOV e no CDI, de 2001 a 15/12/2017. 2001 foi escolhido por ser a partir daí que conseguimos encontrar previsões de analistas generalizadas na base de dados e 15/12/2017 foi a última data disponível para calcular os retornos.



ANALISE DOS RESULTADOS

Retornos anuais

Conforme podemos observar na tabela abaixo, a carteira com as recomendações dos analistas gerou um retorno médio e mediano muito maior do que o IBOV e CDI, porém com um risco muito maior do que o CDI (que é renda fixa e com risco mais próximo de zero), porém com risco menor do que o IBOV.
Como não é uma boa ideia comparar investimentos arriscados como investimentos que o mercado costuma usar como proxy para taxa livre de risco (apesar de eu não considerar o CDI uma taxa livre de risco – escreverei sobre isso em breve), podemos ver que a carteira dos analistas foi bem melhor, pela relação retorno/risco, do que uma carteira muito mais diversificada, como o IBOV.



Análise da evolução patrimonial entre 01/04/2001 e 15/12/2017
Simulação 1: investimento único de R$ 50.000 e custo anual de R$ 3.000

Como comentando anteriormente, essa simulação é para dedicada aos investimentos que têm mais dinheiro que os investidores iniciantes comuns, mas que não têm tempo, experiência, ou segurança para investir sozinhos. Por estes motivos, este tipo de investidor, nesta simulação, está disposto a ter um custo anual de R$ 3.000 para montar a sua carteira com base nas recomendações de analistas.

O gráfico abaixo nos informa que o investidor que seguiu a estratégia de investir no consenso dos analistas transformou os seus R$ 50.000 iniciais em R$ 899.210,06, em 15/12/2017, o que dá um retorno composto (geométrico) de 18,53% ao ano!

Caso tivesse investido no IBOV, teria transformado o seu investimento inicial em míseros R$ 244.725,26 (retorno anual composto de 9,79%), enquanto que no CDI teria acumulado um patrimônio de R$ 425.388,22 (retorno anual composto de 13,42%).

Ressalto que o investimento em ações em 2001 foi de R$ 47.000 (R$ 50.000 – R$ 3.000) e todo 01/04 foi subtraído o valor do custo da carteira, em R$ 3.000.




Simulação 2: investimento único de R$ 10.000 e custo anual de R$ 300

Algumas pessoas podem achar que o investimento em ações não é para elas, porque “o custo é muito alto para investir pouco dinheiro sem ter que pagar a um analista... imagina pagando pelos relatórios”.

Dessa forma, resolvi fazer uma simulação com um investimento inicial e único de R$ 10.000 e um custo anual de R$ 300. Algumas financial researchers possuem planos de relatórios anuais mais baratos para investidores iniciantes. Esse valor de R$ 300 está dentro da realidade atual do mercado, para os mais céticos.

Da mesma forma que a análise anterior, o investimento com essa estratégia gerou um patrimônio maior do que o CDI e o IBOV: R$ 174.005,22 (retorno anual composto de 18,30%), contra, respectivamente, R$ 85.077,64 (retorno de 13,42%) e R$ 48.945,05 (retorno de 9,79%).





Teste de sensibilidade com a carteira de potenciais boas pagadoras de dividendos (publicada no post de 12/09/2017)

Para comparar os resultados, peguei o período em comum da análise que fizemos do post “Vale à pena investir em ações? Comparativo com o CDI de 1998 a 2015”, com os dados do post de hoje.

Os resultados evidenciam que a carteira de dividendos com os pressupostos que assumimos em setembro domina todas as outras carteiras durante todos os períodos, no patrimônio acumulado.

Uma possível justificativa para isso pode ser pelo fato de os analistas sell-side ser mais conservadores em suas análises, do que o próprio investidor, para evitar recomendar ações mais arriscadas aos seus clientes que, em geral, têm uma mentalidade de curto prazo e acabarem manchando a sua reputação. Como carteira de setembro nós não estávamos preocupados com isso, é possível que tenha encontrado melhores retornos por este motivo.




CONSIDERAÇÕES FINAIS

Antes de investir em ações, é preciso que as pessoas sejam educadas financeiramente, gastem menos do que ganhem e estudem sobre os riscos do mercado... e que criem confiança para suportar a volatilidade do mercado no curto prazo. Como podemos ver nas análises acima, no longo prazo, seguindo uma boa estratégia, é difícil as coisas darem errado.

Gostaria de ressaltar uma limitação da análise: um investidor normalmente não faz um único aporte. Ele faz diversos outros aportes anualmente, mensalmente, trimestralmente etc.

Outra limitação importante é que os retornos passados não são garantias de retornos futuros, porém essa é, talvez, a melhor forma de testarmos estratégias. Cuidado com isso.

A consideração desses novos aportes poderia potencializar ainda mais o retorno do investimento em ações, caso o investidor conseguisse comprar ações em períodos em que as pessoas estão vendendo com medo do mercado (e.g. Joesley Day) – assim garantiria uma compra mais barata.

Essa semana eu ainda publicarei um post que trata um pouco de educação financeira. Fiquem ligados!

P.s.: O link do texto citado acima já está aqui, mas o post ainda não está público. Farei isso nos próximos dias.

LISTA DAS EMPRESAS E QUANTIDADE DE ANALISTAS


9 comentários:

  1. Luiz,

    Podia ver qual seria a rentabilidade da 1ª carteira se tivesse com ela até hoje, para ter ideia quanto um investir buy and hold teria de rentabilidade se tivesse apenas comprado seguindo as recomendações.

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    1. Fala, Ronan. Vou fazer um outro post com algumas sugestões recebidas. Vou incluir essa, mas acho que o resultado não será nada bom - lembrando que buy and hold não quer dizer que devo segurar uma empresa para sempre, devo segurar enquanto ela for a melhor opção. Obrigado!

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    2. Ih, rapaz. Acabei de ver que vai dar muito trabalho fazer isso. Mas vou disponibilizar a planilha nesse novo post. Aí, se você quiser, poderá fazer essa simulação - posso até publicar aqui no blog.

      Valeu!

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  2. Luiz, parabéns pela publicação. Sugiro uma nova simulação: aportes periódicos reajustados pela inflação ao longo dos anos, bem como custo das recomendações do sell-side também reajustados por IPCA. Por exemplo, um relatório que custa atualmente R$ 300 ao ano, custaria R$ 103 em 2001. Se eu tivesse os dados, faria a simulação agora mesmo, para saciar a curiosidade.

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    1. Fala, Ranieri. Boa noite! Me manda um email que eu te encaminho a planilha. Você me manda de volta e eu posto aqui no blog. O que acha?! kkk

      luizfelipe@ccsa.ufpb.br

      Ou fala comigo pela fanpage (facebook.com/contabilidademq) ou pelo twitter @felfelipepontes ou @contabilidademq

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  3. Parabéns pelo Post, muito bacana mesmo!

    Como eu investidor PF posso acessar essa informação de quantas recomendações a ação possui?

    Essa base da Thomson Reuters Eikon que vc citou é um serviço pago ou aberto? Poderia mostrar o link de onde encontrar essas informações?

    Obrigado!!

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    1. Obrigado pelo comentário, Arthur.

      Fica de olho aqui no blog que vou postar uma segunda parte dessa análise.

      Aí disponibilizarei a planilha.

      A base de dados que usamos na UFPB é a que eu citei. Ela é bem cara.

      Mas você pode conseguir algumas informações mais limitadas gratuitamente no site da Reuters.

      Veja esse exemplo: https://www.reuters.com/finance/stocks/analyst/MGLU3.SA

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  4. Boa noite Luiz Felipe.
    Quais são as Researchs desses analistas ? Fabio Tavares/RJ

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    1. Bom dia, Fabio. Eu não coletei essa informação. Considerei apenas a quantidade de recomendações.
      Mas tem casas independentes e bancos também.

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