#DeOlhoNosInsiders: edição 3, março de 2018 - Contabilidade & Métodos Quantitativos

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quinta-feira, 15 de março de 2018

#DeOlhoNosInsiders: edição 3, março de 2018

Essa é a terceira edição do #DeOlhoNosInsiders, onde eu apresento as transações dos Controladores, Conselheiros de Administração e Diretores de algumas das empresas que eu acompanho na nossa bolsa de valores.

Tivemos poucas variações nas posições dos insiders, mas eu vou explorar outras questões aqui nesse post. Por isso o post ficou bem extenso. Recomendo que veja a nossa "pauta do dia" e leia o que mais te interessar.

Duas das questões mencionadas eu gostaria de ter feito mês passado, mas preferi comentar agora e fazer um vídeo mais geral falando disso, bem como o caso da Smiles que eu gostaria de ter escrito um post específico, mas que por falta de tempo desisti.



Então essa é a nossa pauta do dia:
  1. Operações dos insiders;
  2. Aluguel de ações do grupo RD, antiga Raia Drogasil ($RADL3);
  3. Matching shares e o aumento "anormal" da quantidade de ações dos insiders da Magazine Luiza ($MGLU3);
  4. Ações dos Conselheiros de Administração da Smiles ($SMLS3); e
  5. Anormalidades detectadas nos relatórios da Instrução CVM 358.

Os posts anteriores dessa série mensal poderão ser acessados abaixo. Recomendo que os que estão chegando agora leiam o primeiro post para se inteirar da ideia que trago aqui, que está relacionada a ativismo dos investidores:



1 OPERAÇÕES DOS INSIDERS

Planilha contendo a quantidade de ações mantida por cada grupo de insiders bem como os seus aumentos ou reduções de posições

OPERAÇÕES DOS CONTROLADORES

Na imagem acima vocês puderam observar que o grupo controlador da Raia Drogasil reduziu em 0,42% a quantidade de ações deles. Quem leu o segundo post dessa série pode perceber que de janeiro para fevereiro houve também uma grande venda por parte dos controladores da empresa, que foi "mascarada" pela finalização dos contratos de alugueis de ações. 

Em um tópico específico mais para frente eu falarei sobre esse caso especial. Não deixem de ler!

A segunda maior redução de posição do controlador foi na Portobello ($PTBL3), que reduziu em 0,31% a participação do acionista controlador.

Por fim, a terceira e última redução na posição do controlador foi na Magazine Luiza, em 0,02%.

No caso da Portobello e Magazine Luiza nós não tivemos como averiguar se houve algo em torno de algum fato relevante porque as datas estavam incorretas ou estavam com problemas no relatório.

Falaremos sobre isso também mais na frente.


OPERAÇÕES DOS CONSELHEIROS DE ADMINISTRAÇÃO

Não houve variação no período.

Mais na frente neste post falarei sobre isso com o caso específico da Smiles.


OPERAÇÕES DA DIRETORIA

Não houve variação no período.

2 COMENTÁRIOS ESPECÍFICOS SOBRE AS NEGOCIAÇÕES DOS INSIDERS

ALUGUEL DE AÇÕES DO GRUPO RD

No mês passado uma coisa me chamou muito a atenção para o relatório 358 da Raia Drogasil: quantidade de liquidações de alugueis e vendas de ações.

Isso me chamou a atenção porque as liquidações dos contratos de alugueis acabaram "mascarando" as vendas de ações do grupo controlador da empresa.






São 9 páginas (!!!) apresentando as transações dos insiders do grupo controlador. 

Quando olhamos só para o número final, ficou parecendo que eles entraram comprando ações no mercado, mas, pelo contrário, eles entraram vendendo. 

Essa ilusão de que eles parecem ter comprado se deu porque suas ações estavam alugadas e eles liquidaram os contratos junto com a venda - ou para vender as ações no dia seguinte, como foi no dia 8 e 9 de fevereiro.

Foi errado o que eles fizeram? É possível alugar as ações?

Não, porque não é proibido alugar ações. Alugar ações é muito recomendável para quem investe com foco no longo prazo. Eu mesmo coloco sempre todas as minhas ações para alugar.

O que me motivou a falar especificamente sobre isso foi o fato de muitas pessoas não saberem que é possível alugar ações (fiz uma pesquisa em meu Instagram sobre isso, @felfelipepontes, e dei uma breve explicação) e o fato de que nós que buscamos investir pensando no longo prazo e de forma mais ativista devemos prestar atenção aos detalhes.

No aluguel de ações existem duas partes (fora a intermediação da bolsa): a pessoa que coloca suas ações para alugar (doador) e a pessoa que quer alugar ações de outra pessoa (tomador).

Por que alguém alugaria ações? Você pode estar se perguntando. Para o doador, que não vai ficar "tradando/treidando" (fazendo trades diários, ou fazendo swing) a vantagem é que as ações estão paradas e você ganha uma taxa do aluguel por isso, mantendo todos os seus direitos.

Para o tomador, a vantagem é que ele pode fazer uma venda a descoberto, sem ter o dinheiro para comprar as ações - pagando apenas os custos operacionais.

Por exemplo, se você quer comprar uma ação que acha que o preço subirá, mas não tem dinheiro para comprá-la, uma forma de conseguir o dinheiro é vender uma outra ação que você acha que o preço cairá.

Se tudo der certo, você consegue vender a ação que você achava que subiria, com lucro, para recomprar a ação que você achava que cairia e devolver para o seu doador. Não estou estimulando ninguém a fazer isso, é arriscado e precisa de muito estudo (e sorte, por que não?).

Resumindo: tomar emprestado uma ação envolve risco. Emprestar uma ação para um tomador não envolve muitos riscos, principalmente se você puder encerrar o contrato quando quiser (os meus são assim). 

O investidor que olhou só para o número final acreditou que a empresa estivesse aumentando realmente a sua posição nela mesma, quando, na verdade, estava reduzindo.

Atualmente, as ações da Raia Drogasil estão com uma taxa média de remuneração para o doador de 0,62% e custo para o tomador de 0,75%.

A Arezzo hoje, por exemplo, está dando uma taxa de 9,82% ao doador, a Gafisa está com 11,65%, enquanto que o Bradesco está com uma taxa de 0,06%.

Eu já cheguei a pegar uma taxa de mais de 30% na Magazine Luiza no ano passado. Quem investe pensando no longo prazo, recomendo que pense bem sobre o aluguel.




MATCHING SHARES DA MAGAZINE LUIZA

Outro ponto que chamou muito a atenção no relatório do mês passado foi o aumento de quase 700% na participação acionária dos Diretores da Magazine Luiza.

Mais uma vez, quem olhou apenas para o número pode ter chegado a uma conclusão diferente daquela que realmente aconteceu.

Esse aumento na participação dos Diretores se deu por causa de um programa de incentivos que eles têm, denominado de "1º Programa de Matching de Ações".

E o que seria esse tal de "matching"?

Matching shares é uma forma de incentivar os funcionários da empresa e alinhar os seus objetivos aos da empresa - isso parece ter faltado no caso da Smiles, mas falo disso depois. 

O que acontece é que a empresa define um valor pelo qual os seus colaboradores poderão comprar ações e para cada ação que eles comprarem, a empresa dá uma outra quantidade. 

No caso da Magalu, eles definiram os seguintes objetivos com esse plano (vocês podem encontrar isso no Formulário de Referência de 2017, clicando aqui):

  1. aumentar a capacidade de atração e retenção de talentos pela Companhia; 
  2. reforçar a cultura de desempenho sustentável e de busca pelo desenvolvimento dos nossos administradores, empregados e prestadores de serviços, alinhando os interesses dos nossos acionistas aos das pessoas elegíveis, nos termos do Plano 2017; e 
  3. estimular a expansão da Companhia e o alcance e superação de nossas metas empresariais e a consecução dos nossos objetivos sociais, alinhado aos interesses de nossos acionistas, através do comprometimento de longo prazo dos Beneficiários.  

E como funcionou o matching?

A "precificação" aconteceu da seguinte forma, segundo o formulário de referência de 2017:

Conforme o 1º Programa de Matching de Ações, os Beneficiários poderão adquirir ações ordinárias da Companhia listadas no Novo Mercado da B3 S.A. – Brasil, Bolsa, Balcão, pelo valor de R$ 184,46, valor este correspondente à média ponderada das ações nos 30 pregões ocorridos no período entre 01/03/2017 e 11/04/2017.  

Ainda seguindo o formulário de referência:

Para cada ação ordinária da Companhia adquirida pelos Beneficiários 1º Programa de Matching de Ações, a Companhia outorgará aos Beneficiários 1º Programa de Matching de Ações o direito de receber, gratuitamente, 3 (três) ações ordinárias da Companhia. Neste sentido, o preço de exercício no âmbito do 1º Programa de Matching de Ações não é aplicável, tendo em vista que as ações ordinárias serão entregues aos participantes a título não oneroso.  

Sendo assim, os funcionários buscarão, teoricamente, se dedicar ao máximo para fazer com que o valor da empresa aumente e isso se reflita no preço, para que eles, no futuro, possam realizar seus lucros!




(FALTA DE) AÇÕES DOS CONSELHEIROS DE ADMINISTRAÇÃO DA SMILES

Finalmente chegamos à Smiles!

Eu sou acionista da empresa e fiquei extremamente chateado com a decisão de, arbitrariamente e com pouquíssima informação divulgada, eles terem reduzido o payout de 100% para 25% do lucro.

A Smiles é uma empresa que funciona basicamente sem custos. Tem pouquíssimos funcionários e poucos investimentos a serem realizados. Isso justifica o alto payout.

Teoricamente, essa decisão não deveria afetar o "valor" da empresa (fluxos de caixa futuros a valor presente) , porém afetou o valor de mercado (preço*quantidade de ações).

Por qual motivo o "valor" não deveria ter sido afetado, mas o valor de mercado foi?

Quando uma empresa como a Smiles começa a pagar dividendos como ela pagava, isso atrai uma "clientela" de investidores que buscam renda por meio de dividendos. Isso gera um "prêmio" para essa ação. 

Quando a empresa anuncia, abruptamente, que não pagará mais tanto dividendo quanto antes, a clientela foge e o preço é derrubado por causa da quantidade de gente vendendo as ações.

Outro ponto que pode ter explicado a derrocada nos preços da ação foi a assimetria informacional que existiu nesse processo. 

Em um fato relevante eles comunicaram a redução do payout sem dar muita explicação convincente. A especulação já começou daí, porque uma redução tão forte no payout de uma empresa que vinha distribuindo bons dividendos e dando bons resultados só poderia ser uma coisa: 

RETENÇÃO DE LUCROS PARA INVESTIMENTOS EM NOVOS PROJETOS (OU AQUISIÇÕES DE OUTRAS EMPESAS), QUE GERARÃO MAIS FLUXOS DE CAIXA FUTUROS... QUE MAXIMIZARIAM O VALOR DA EMPRESA E AINDA GERARIAM MAIS DIVIDENDO NO FUTURO!!!

Que coisa boa! Mas não!!

Na conference call da Gol tudo ficou mais claro. O que houve foi uma interferência da Gol na decisão da Smiles, já que a Smiles é controlada pela Gol, de modo que o balanço da Gol fosse embelezado e assim eles poderiam melhorar o rating para captar recursos mais baratos.

Essa foi a pré-captação de recursos mais cara que eu já ouvi falar.

E não para por aí. 

Eu e outras pessoas enviamos emails ao RI da empresa, solicitando mais informações sobre esses "investimentos" que eles farão. Não obtivemos nenhuma resposta. Aqueles que ainda tiveram resposta, receberam a mesma informação genérica do fato relevante.

Eu entendo o lado do RI da empresa, porque eles são funcionários, mas eles estão sendo coniventes e irresponsáveis!

E é aí que eu entro no comentário sobre o relatório da ICVM 358 e o #DeOlhoNosInsiders.

Diferente da Magazine Luiza cujos insiders detém participação acionária na empresa, na Smiles, como vocês podem ver no relatório que divulguei no início desse post, não há nenhuma participação dos insiders a não ser do controlador.

Será que os objetivos do diretores e conselheiros de administração estão mesmo alinhados com os objetivos da empresa e dos acionistas? 

Parece que do acionista controlador sim.



ANORMALIDADES DETECTADAS NOS RELATÓRIOS

Por fim, vou comentar sobre algumas anormalidades detectadas no relatório deste mês.

Raia Drogasil: não é bem uma anormalidade, mas só a título de informação, todas as operações ocorreram no dia 01/02, pela corretora do Itaú.

Magazine Luiza: não informaram nem o dia, nem o valor da transação. Isso dificulta avaliarmos a relação com fatores relevantes. Já cobrei ao RI, mas ainda não obtive resposta.

Portobello: há um erro no preenchimento do documento. As datas parecem estar incorretas, pois estão em ordens erradas e com meses errados, além do que tem uma operação que parece ser de aluguel, mas que não está devidamente apresentada como sendo um aluguel.

Nenhuma empresa atrasou a entrega do relatório.


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